Por Daniel X.
"Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito." A frase atribuída a M.Luther King, e que é muito compartilhada de forma romântica por atletas em redes sociais, pode parecer incentivadora em um primeiro momento. Mas quando se trata da nossa integridade física, existem algumas ressalvas. Se você não está conseguindo mais correr, seja lá qual for o motivo, então, o melhor mesmo é parar.
Fui para a Maratona do Rio com esse pensamento. Afinal, não fiz treinamento específico para o evento, uma vez que, fiquei muito tempo parado devido à uma fratura de estresse no calcâneo,
que estava sendo diagnosticada como fascite plantar. Realmente existia uma fascite, mas a fratura foi ignorada até que eu consultasse com um médico mais experiente e especialista em pé, que atende muitos atletas. O Dr. Waldeir Estevam Lopes, da
Clinorto.
O que fiz foi muita fisioterapia (desde janeiro), e um fortalecimento muscular através de pilates com o Dr Ayslan, que é especialista na área esportiva, e atende em sua clínica vários atletas profissionais de vôlei, futebol, handball, entre outros.
E olha só que também faz pilates com Ayslan:
Bruno Furtado, jogador profissional de
vôlei.

E é claro, fiz uma bateria de exames, como, teste ergométrico, ecocardiograma, E.C.G., consultas com cardiologista, pneumologista, e até mesmo
hematologista.
Mas porque hematologista? Em julho do ano passado, após a maratona do Rio 2012, tive uma hipotermia. Fui atendido na tenda médica do evento, e liberado. Vindo a passar mal posteriormente no aeroporto Santos Dumont, onde fui novamente atendido, só que pela equipe médica do local.
Meu vôo foi adiado, e fiquei 6 horas sentado em uma poltrona. No vôo vim a sentir uma forte dispnéia. Quando cheguei em BH, fui direto para o hospital. Fui atendido e liberado por vários dias consecutivos, mesmo persistindo os sintomas. Só na quinta vez que compareci ao hospital, já com cianose, taquicardia, Sat O2 alterada (inclusive com gasometria bem baixa), é que tive a sorte de ser atendido pela Dra Mariana Correa, que através do 1º E.C.G. que havia feito no mesmo local (11 dias antes), suspeitou de uma possível
embolia pulmonar, vindo a requisitar uma Angio TC dos pulmões. Resultado: ambos pulmões com várias artérias obstruídas por coágulos...
Então precisava excluir também a possibilidade de
trombofilia antes de partir para uma corrida de longa distância, seguida de um vôo. Agradeço ao Dr. Guilherme Campos Muzzi - hematologista, Dra Munira Martins de Oliveira - Pneumologista , e ao Dr. Marcio Luiz Torres Correa - Cardiologista, Dr. Giancarlo Garibaldi - Cardiologista, pelo acompanhamento.
O fato também me gerou dúvidas e inseguranças quanto a eficiência dos atendimentos de urgência em eventos, uma vez que, quando fui liberado do posto médico da prova, ainda estava me sentindo mal. Vindo a ser atendido novamente no posto médico do aeroporto com quadro de
hipotermia.
Cópia do relatório médico do atendimento no Aeroporto Santos Dumont em 2012 (clique para ampliar):
Fui para o Rio com minha esposa, Roseli, que foi inscrita na Meia Maratona contra sua vontade, rssss.
Logo quando chegamos ao aeroporto Santos Dumont, já fui aderindo às manifestações que aconteciam no local.
José Manuel, ex-tripulante Varig, 67 anos. Em greve de fome como protesto, pois não recebe salário do Fundo AERUS de Seguridade Social há mais de SETE anos. Atualmente aparado por um "TUTELA ANTECIPEDA" que está nas mãos do Exmo Ministro Presidente do Superior Tribunal de Justiça, Joaquim Barbosa. Saiba mais
AQUI!
A retirada do nosso kit, que aconteceu na sexta-feira, foi tranquila.Não havia tenda de massagem, como em 2012. Mais uma vez havia uma store da Olympikus, vendendo praticamente os mesmos produtos que vem no kit. Muitas pessoas que procuravam por um cinto de hidratação, ou meia de compressão de última hora (por ainda não terem, ou ter esquecido pra trás), buscaram a solução com vendedores ambulantes do lado de fora da arena da organização. Estes vendedores, com certeza venderam muito mais que a própria Olympikus, devido a variedade de produtos.
Na retirada do kit encontrei apenas um conhecido: o Nescau, de BH, que iria estrear na Maratona.
Como sempre, devido ao nosso amor pela sétima arte, tivemos que ir ao cinema algumas vezes antes do dia da prova. Os comentários sobre os respectivos filmes já foram postados no
"Clube do Filme" (AQUI!).
No dia da prova acordei desanimado para correr (não sei porque), não senti vontade de me alimentar direito. Fui para o local de onde partiam os ônibus para a largada e lá encontrei dois amigos: Maurício Sá e Marcos Viana Pinguim, vindo a embarcar no mesmo ônibus.
Chegando no local da largada encontrei também vários amigos das corridas, como o pessoal da ACORD, Casa do Corredor, e o Artur Muler de Divinópolis.
Tive o prazer de conhecer pessoalmente a amiga virtual, Valéria Spakauskas.
Larguei no fundão, para não atrapalhar os mais rápidos. Comecei a prova bem, tendo como referência minha frequência cardíaca. Fui mantendo um ritmo bem confortável, não deixando a FC ultrapassar 135 bpm (bem abaixo do meu limite), e naquele ritmo provavelmente iria concluir a prova com aproximadamente 5 horas.
Logo no início do percurso, o sol já estava incomodando muito. No primeiro posto de hidrotônico veio a primeira decepção. Mesmo não estando entre os últimos colocados (ainda tinha muuuita gente atrás), o hidrotônico já havia acabado a muito tempo. Sendo que, apenas os primeiros corredores puderam usufruir do repositor. A evidência que não havia o suficiente para os atletas, era a pouca quantidade de sachês vazios que estavam jogados no chão.
A água estava em temperatura ambiente, vindo vários atletas a terem que parar para comprar água gelada nos quiosques.
Fui acompanhando a amiga Valéria e sua parceira de prova, batendo papo em um ritmo bem confortável. Mas por volta do Km 15, senti uma "fisgada" no joelho direito, e disse para Valéria, "acho que essa vai ser a primeira corrida que vou ter que caminhar"
Passei a caminhar, pra ver se a dor passava. Alonguei. Mas nada. A articulação do joelho continuava cada vez mais enrijecida e a dor mais intensa. Tentei em vão, voltar a correr, mas a dor ficava ainda mais aguda.
Quando cheguei caminhando à placa do Km 21, pensei: "é, não vai dar. Se eu andar nesse ritmo até a linha de chegada, só vou chegar amanhã. Se forçar, vai agravar a lesão".
Me sentei do lado da placa de quilometragem e refleti um pouco. Não foi fácil ter que engolir essa.
E para delírio de um grupo que estava próximo ao local, dei sinal para um táxi. Desisti. Resolvi ir
para a linha de chegada de táxi mesmo...
Mas aí, outro problema: devido ao trânsito congestionado por causa da própria corrida, o taxímetro sugou todo dinheiro que estava em minha posse. Então, pedi para o taxista parar. Neste ponto estava próximo a um túnel que fica do lado da Rocinha. O taxista foi muito gentil e disse: "vou te deixar no Leblon", parando próximo ao trajeto da prova.
Pedi atendimento em uma ambulância do evento, que estava no km 31. E após 30 minutos com gelo no joelho e muita pomada analgésica, senti um alívio pelo menos para caminhar. Como não tinha outra opção, fui caminhando rumo à linha de chegada para retirar meus pertences no guarda-volumes.
Fui de cabeça baixa, e apesar de ouvir os incentivos, não havia como me conformar, pois esperei um ano para dar "essa volta por cima".
Confira o vídeo do meu trajeto.
Mas maior ponto negativo da prova foi na área da orla da praia de Copacabana, onde presenciei um atleta idoso quase ser atropelado por um ciclista, que fazia manobras entre os atletas.
Vi também muitos atletas se desviarem de skates, patins e bicicletas. Mesmo tendo uma ciclovia ao lado, muitos preferiam fazer suas manobras em meio aos corredores. E não havia ninguém da organização para garantir a segurança dos atletas. Me lembrei de um comentário postado em
outra matéria (AQUI) pela atleta Verusa Almeida:
"vocês estão lidando é com vidas. Deve-se ter uma estrutura preparada para tudo,não basta entregar simples camisas e medalhas,é necessário dar suporte ao atleta."
E é triste ver que, o povo que sai às ruas, manifestando e reivindicando mais postura por parte de políticos, é o mesmo povo que parece estar pouco se lixando para o espaço do outro.
Também é interessante ver que, os organizadores, que tanto reclamam da presença de "pipocas", não se importam muito se outras pessoas estiverem atrapalhando o andamento do evento, desde que não usufruam da estrutura da prova. Assim, parece que a preocupação de organizador com relação aos "pipocas", é simplesmente referente aos gastos que eles podem vir a trazer à organização, e não com o conforto/segurança dos clientes.
Os últimos corredores ficaram completamente abandonados, pois, a organização retirou o gradeamento e sinalização colocados ao longo do percurso, antes mesmo do horário previsto para o fim da prova, vindo os atletas a disputarem a pista com carros, motos, carretas ...
Digo que o tempo limite da prova ainda não havia acabado, pois,o ônibus que passa recolhendo os "últimos atletas com pace permitido" (conforme previsto em regulamento) ainda não havia passado.
O lanche repositor que fica localizado em Copacabana também já havia se esgotado.
Parece que quem realizou este evento se esqueceu de que, quem chegou por último, pagou o mesmo valor que quem chegou em primeiro. Aliás, geralmente os primeiros colocados, que são atletas de elite, e a "grande atração" do evento, nem pagam, pois ganham cortesias dos realizadores. Então por quê quem ficou para trás tem que ser tratado com tanto desprezo?
Não estou dizendo isso apenas porque dessa vez cheguei entre os últimos. Em outras ocasiões onde fui bem colocado, também já critiquei atitude semelhante por parte de organizadores
(AQUI).
Nos Kms finais, acelerei minha caminhada para um trotinho leve, sem gerar muita dor, mas para chegar logo ao guarda-volumes. Ainda estava mancando e muitas pessoas que viam a cena, aplaudiam, em um suposto momento de superação. Mas na verdade, era só pressa para pegar minhas coisas e ir logo embora.
Me emocionei muito quando estava próximo ao aterro do Flamengo, pois, foi o último lugar que levei meu pai para passear, em 2012.
Danifiquei meu chip para não ser incluído na lista de colocação, uma vez que não fiz o percurso todo, e peguei minha (des)merecida medalha.
Agradeço ao Paulo Henrique Prudente, que me emprestou seu celular para fazer uma ligação depois da prova. E também à Tomiko Eguchi, que meu deu um analgésico próximo à linha de chegada.
Deixo também meu agradecimento a outros profissionais que me apoiaram nessa fase: Dr Washington Fernando Rodrigues, Dr Anderson Saleme, Dr Ayslan Dias, Dr Domingos Sávio de Mendonça, e Dr Marco Antônio Bahia.
A Maratona do RIO 2012, foi o melhor evento que já participei na minha vida. Já a edição 2013, foi a pior organização do ano até agora. Em 2012 recomendei a prova para todos que quisessem estrear nos 42 km, hoje já não recomendo mais. Não digo que não irei participar de uma nova edição, mas com certeza, não vou esperando nada demais, nem recomendar a ninguém para não me sentir culpado depois.
Até então, não sabia o que era sofrer uma lesão durante uma prova. Não sabia o que era ter que parar. Não sabia o que era DESISTIR. Mas me lembrei que, fui para o Rio, unicamente com o objetivo de me divertir, e isso eu fiz muito. Usufruímos de todos os recursos culturais cariocas a nosso alcance: gastronomia, turismo, cinema, sebos, livrarias, teatro, museus...
E quanto ao meu orgulho? Um dia desses eu recupero. Um dia desses...
"Vencer não é coisa de momento. Vencer é uma coisa de sempre. Não se vence às vezes. Não se faz a coisa certa às vezes. Faz-se a coisa certa sempre. Vencer é um hábito. Infelizmente, perder também."
Vince Lombardi
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